BIM no Mundo

É inquestionável o papel do sector da construção nas economias nacionais. Só na Europa este setor representa cerca de 10 % do Produto Interno Bruto (PIB), empregando cerca de 14 milhões de cidadãos (sendo de realçar que 44,6 milhões dependem de uma forma ou de outra deste setor). No caso particular de Portugal, a construção representa cerca de 6 % do PIB e envolve mais de 470 mil trabalhadores.

Apesar da influência do setor da construção na economia (quer seja através de construção nova quer seja através de reabilitação ou gestão de edifícios), a indústria da construção apresenta-se como uma indústria estagnada, com baixa produtividade e significativa vulnerabilidade derrapagens nos custos e prazos.

 

O Building Information Modelling (BIM) surge assim como uma solução de modernização e reestruturação da indústria, integrando a fileira da construção, estimulando a colaboração, incentivando a desmaterialização e elevando a importância de melhores desempenhos e processos mais eficientes.

O BIM é visto como uma tecnologia mas também como uma nova metodologia de trabalho. Por um lado, uma tecnologia 3D que virtualiza o edifício ou a infraestrutura e incorpora toda a informação existente e gerada ao longo do seu ciclo de vida e, por outro, uma metodologia de trabalho mais colaborativa, que implementa processos mais ágeis e é capaz de valorizar a informação gerada como até hoje nunca foi conseguido na indústria da construção.

O modelo virtual, que representa o empreendimento de construção nas suas diversas fases, é paramétrico e constitui uma base de dados bastante potente que serve de base aos mais diversos tipos de operações avançadas. Com base nestes modelos, diversas simulações podem ser conduzidas e verificações complexas podem ser feitas de forma ágil, de acordo com regras que podem ser programadas e automatizadas.

 

O BIM é, contudo, apenas o lado visível de um paradigma maior de digitalização, em que a informação, simulação e otimização surgem de forma disruptiva. Os desafios inerentes são diversos, passando pela estruturação dos sistemas de classificação, levantamento e mapeamento de processos, integração da cadeia de abastecimento, criação de bibliotecas de objetos e suas propriedades, apoio à implementação de metodologias, integração de sistemas de asset management, integração com sistemas de monitorização e sensorização, virtualização e simulação de cenários, entre outros.

A nível Internacional o BIM está já bastante disseminado, estando mais avançada a sua implementação ao nível da América do Norte, Singapura, Reino Unido e Países do Norte da Europa. A abordagem em cada um destes países varia, sendo, no entanto, irreversível o percurso adotado. Em termos gerais a implementação do BIM e a digitalização da Construção varia essencialmente em relação ao seu principal impulsionador (governo vs. indústria), sendo, em qualquer um dos casos, crucial o papel e a visão dos donos de obra.

 

 

DISSEMINAÇÃO DO BIM A NÍVEL EUROPEU

O caso do Reino Unido

A nível Europeu, apesar de existirem alguns países como a Noruega e a Finlândia que implementam o BIM de forma obrigatória há já algum tempo (através de entidades públicas de gestão do património), um dos principais momentos da introdução do novo paradigma BIM foi o discurso do Minister for the Cabinet Office do Reino Unido, Francis Maude. Neste discurso, proferido em 2012 na iniciativa governamental Government Construction Summit, Francis Maude coloca o desafio da implementação BIM obrigatória no Reino Unido e marca o ano de 2016 como o ano da mudança. No seu discurso, disponível online, é possível ler:

“We have mandated 3D collaborative BIM on all appropriate centrally-procured projects by 2016.  This whole sector approach to BIM will see the UK as the world leader in a new digitally built era, offering new ways of working, as well as massive growth potential both at home and abroad.”

 

Esta decisão de obrigatoriedade do BIM decorreu de uma estratégia para a construção promovida pelo governo que levou à criação do UK BIM Task Group e ao investimento assertivo na digitalização da indústria da construção. A ambição era clara e emergiu da visão para 2025 presente no documento estratégico Construction 2025 do Governo Britânico, que se baseava em objetivos claros (Fig.2).

 

Fig. 1 – Objetivos visão Construção UK 2025

 

O plano inicial previu a implementação do nível 2 de maturidade BIM (Fig.2) até 2016, a par da definição clara do framework de base à gestão de modelos de informação para todo o ciclo de vida dos empreendimentos de construção (Fig.3).

 

 

Fig. 2 – Maturidade BIM

 

Fig. 3 – Framework de informação para apoio ao ciclo de vida dos empreendimentos de construção

 

Neste momento o Reino Unido pensa já nos próximos passos, que focam a implementação de níveis mais avançados de digitalização da construção. Neste sentido foi apresentada uma nova iniciativa, o plano de digitalização designado “Digital Built Britain”, que eleva significativamente o desafio da implementação BIM. No documento estratégico publicado pelo Governo, o Secretary of State for Business, Innovation and Skills, Vince Cable, assume o sucesso do primeiro plano e partilha as expectativas de futuro:

“The Government in collaboration with industry has already committed to the Level 2 BIM programme as well as investing £220M in the development of a High Performance Computing programme and over £650M in the delivery of transformational high speed Broadband across the UK by 2015. We have a recent track record of world class construction deliveries such as the 2012 Olympics and Crossrail the largest construction project in Europe now reaching the half-way point. We have seen the global reaction to our Level 2 BIM programme’s successful delivery and significant cost savings which have greatly assisted the construction costs savings of £840M in 2013/4, with several major EU nations including France and Germany announcing similar BIM programmes.

If we want to retain our strength in this economy we cannot stand by. We need concerted joint action from Government, Industry and Academia working in partnership toward the success of the sector and ensuring that benefits are felt across the rest of the economy. The Information Economy is transforming the way we live and work. It is crucial to our success on the global stage and to facing the challenges of urbanisation and globalisation that we grasp the opportunity that Digital Built Britain presents. ”

 

Como se pode verificar na Fig. 5 o programa proposto tem já uma visão inter-setorial, em que o BIM e digitalização (nível 3) já se consideram um ativo inegável da indústria da construção e das infraestruturas.

 

Fig. 4 – Colaboração inter-setorial

O movimento BIM a nível europeu

Este movimento inglês de digitalização impulsionou uma mudança generalizada a nível europeu. É de evidenciar os mais recentes avanços em França e na Alemanha. O caso de França é especialmente relevante, dado o investimento relevante de cerca de 20 milhões de euros. Bertrand Delcambre, do CSTB e o principal mentor do plano de digitalização da construção refere no seu relatório de 2014 a necessidade de uma mudança:

“La maquette numérique est l’innovation numérique majeure dans le secteur car elle a un impact potentiel sur tous les métiers. Elle est un véritable avatar virtuel attaché à l’ouvrage, qui contient à la fois ses propriétés géométriques et des renseignements sur la nature de tous les objets utilisés (composition, propriétés, etc.). Cet outil est en passe de modifier profondément l’ensemble des processus de construction. Le BIM (« Building Information Modeling ») s’impose comme la méthode de travail basée sur la collaboration autour d'une maquette numérique ; cette maquette s’enrichit des apports des différents intervenants sur l’ouvrage, de la conception à la construction, et de la réception à la fin de vie. Elle permet ainsi à toutes les parties prenantes de mieux représenter, anticiper et optimiser les choix, tout au long de la vie de l’ouvrage.”

 

Reflexo desta mobilização crescente de países europeus (países nórdicos, Reino Unido, França, Alemanha, Austria, etc.) foi a recente criação do grupo de normalização BIM europeu, o CEN/TC 442, e o EU BIM Public Owners Group co-financiado pela Comissão Europeia (http://www.eubim.eu).

 

No caso do CEN/TC 442 é pertinente partilhar a motivação da proposta de criação do grupo, que refere, essencialmente, a urgência do BIM e de uma abordagem concertada na europa:

“The introduction of Building Information Modelling (BIM) is seen as being the solution to the management of the information during the design, construction and operational phases of the asset lifecycle. The development of BIM is advancing rapidly and requires the application of common standards to ensure future compatibility of data exchange and use.”

 

Do lado das vantagens do BIM, o documento é bastante explícito e partilha alguns dos ganhos atingidos em casos reais:

“Initial results from a Danish study indicate potential improvements of 70% on productivity, bid price reductions of 30%, reduction in design faults of 90% and reduction of FM/operation costs of 20%. A recently published UK Cabinet Office report shows capital cost savings of 19.6% due to use of BIM, saving £840m on £3.5bn of construction spend in the 2013/2014 financial year. “

 

No caso concreto do EU BIM Task Group é de referir que foi recentemente submetida uma proposta formal de institucionalização do grupo no seio da Comissão Europeia.

No 1º Workshop realizado em Bruxelas nas instalações da Comissão, no qual Portugal esteve representado pelo Instituto Superior Técnico, é de realçar a unanimidade dos membros da Comissão presentes em relação à inevitabilidade do tema. Marzena Rogalaska, Presidente da Diretoria Geral para o crescimento, sustentabilidade e construção, reconheceu a necessidade de generalizar o BIM por todos os membros da união, principalmente no sentido de impulsionar a implementação da agenda digital da europa.

Finalmente, em Janeiro de 2016 este grupo foi formalmente criado e apoiado pela Comissão Europeia (www.eubim.eu), tendo sido a sua primeira reunião no dia 29 de Fevereiro de 2016, em Bruxelas.

 

 

BIM em Portugal

Em Portugal foram organizadas diversas iniciativas de disseminação e apoio à implementação BIM, donde se destacam a Comissão Técnica de Normalização BIM, a CT 197, que faz a ponte com o CEN/TC 442 e o EU BIM Task Group.

O trabalho desta CT está a ser desenvolvido com o apoio de todas as entidades envolvidas, e com base em 4 subcomissões principais: 1- Plano de Ação e Maturidade; 2- Metodologias BIM; 3- Trocas de Informação e Requisitos; e 4- Modelação e Objetos BIM.

A integração internacional das iniciativas nacionais tem sido garantida pelo Instituto Superior Técnico, através da participação nos diversos grupos existentes. É de referir que o IST tem estado ativamente envolvido nesta temática, principalmente através da atividade do autor deste texto, sendo, desde há uns anos o principal dinamizador da implementação BIM em Portugal.

 

 

(Texto da Autoria do Prof. António Aguiar Costa)